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  • Foto do escritorEdson Bündchen

Um debate inadiável

O Bacen brasileiro tem por funções primeiras garantir a estabilidade de preços e o poder de compra da moeda. Para cumprir esse papel, uma de suas armas mais poderosas, particularmente em momentos de choques externos ou instabilidade interna, é o martelo poderoso da taxa de juros. Contudo, essa gestão da política monetária não é simples, geralmente implicando numa grande dificuldade de estabelecer os pontos de corte precisos ao longo do tempo, pois a duração dos ciclos inflacionários é determinante para que se observem os reais efeitos da política monetária na economia. De fato, calibrar adequadamente os juros é uma mistura de ciência e arte, uma vez que, além da técnica, é preciso bastante sensibilidade para que o freio monetário não estrangule a economia, especialmente com a inibição de novos investimentos e aumento generalizado da inadimplência. Para isso, é preciso que, tanto o Bacen, quanto o Governo, trabalhem de forma coordenada, de modo que os resultados desse diálogo espelhem um equilíbrio entre as políticas fiscal e monetária. Nesse sentido, as recentes declarações do Presidente Lula, criticando a atuação do Bacen, para além do aspecto político da manifestação, traz para o debate uma discussão incontornável acerca das possibilidades de uma redução mais rápida das atuais taxas, já que o Brasil lidera o ranking dos países com os maiores juros reais do planeta.

A combinação dos impactos em cadeia da Covid-19, especialmente com o efeito inflacionário que as monumentais injeções de liquidez causaram na inflação ao redor do globo, somada à guerra na Ucrânia e a cauda longa da desaceleração chinesa, alçaram as políticas monetárias dos bancos centrais a um papel decisivo. A receita comumente aplicada vem sendo o aumento dos juros das taxas básicas, em doses e temporalidade não coincidentes, uma vez que as características de cada economia sinalizam maior ou menor agressividade das autoridades monetárias. No Brasil, a título de exemplo, as causas já citadas como determinantes para a alta dos juros fizeram com que, em menos de quinze meses, saíssemos de 2% de juros para os 13.75% atualmente praticados. Isso representa uma taxa de juros, acima da inflação, na ordem de inéditos 8%, revelando a força bruta da política monetária que agora suscita naturais questionamentos, já que o remédio poderia estar sendo aplicado em dosagem inadequada.


Nessa perspectiva de ponderação, uma análise consistente teria que considerar as variáveis comuns utilizadas pelas autoridades monetárias dos países que hoje também enfrentam a ameaça de descontrole inflacionário. A partir dessa comparação, seria possível verificar se há alguma calibragem muito discrepante entre os parâmetros, mesmo levando em conta haver parte considerável da análise que é subjetiva, portanto mais difícil de comparar. Entretanto, é forçoso reconhecer que, com a taxa Selic nos patamares atuais, não apenas há forte desestímulo a novos investimentos, como estamos plantando uma inadimplência potencialmente destrutiva e que pode comprometer a saúde da economia brasileira de forma muito grave para os próximos anos. Nesse sentido, alguns setores econômicos começam a manifestar inquietação com a atual política de juros altos do Bacen. Muito embora o agro, motor inconteste da nossa balança comercial, ainda esteja até certo ponto protegido por conta de parte dos créditos serem subsidiados, bem como dos bons preços das commodities agrícolas, no comércio, indústria e serviços, os atuais juros bancários, impactados fortemente pela Selic, estão em patamares proibitivos. Torna-se impensável, assim, admitir que conviver com a atual situação de estímulo ao rentismo, não implique em reconhecer que estaremos plantando uma das maiores inadimplências estruturais das últimas décadas, além de condenar o País a postergar, mais uma vez, uma recuperação consistente na taxa de investimentos públicos e privados de que tanto o Brasil precisa.

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