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  • Foto do escritorEdson Bündchen

Apesar de você...

O avanço das democracias liberais pelo mundo tem sofrido preocupante erosão nos últimos anos. De acordo com o V-Dem institute, da Suécia, a ascensão mais visível é das autocracias eleitorais, regimes cujo objetivo é solapar internamente os fundamentos democráticos, enfraquecendo e aparelhando gradualmente as instituições, conforme já alertaram os professores de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, no livro “Como as Democracias Morrem”, obra que vem orientando as discussões sobre o tema. A matéria ganha urgência e relevância a partir da forte correlação entre o autoritarismo e a violência, tanto doméstica, quanto externa, como tragicamente demonstra a invasão da Ucrânia pela Rússia, esta última governada, há mais de duas décadas, pelo mesmo homem, cujas ações ressuscitam um mundo julgado superado, e cujas intenções ainda mais obscuras acentuam um enorme véu de incertezas sobre o planeta. Evidencia-se, tristemente, que a paz ainda é uma concessão dos poderosos, conforme pontuou recentemente o General brasileiro Sérgio Etchegoyen, e não uma conquista edificada sob princípios humanitários, como tantos ousaram sonhar.

A propósito, o ceticismo e o otimismo sempre marcaram as análises que tentam compreender o desenrolar da história, mas esta mesma história geralmente trata de contradizer friamente quem ousa antecipá-la ou prevê-la. Francis Fukuyama, foi um dos pensadores que se tornaram célebres por festejar precocemente aquilo que ele cunhou como “O fim da história”, a vitória definitiva do capitalismo liberal e da democracia como fiadores últimos do progresso e da estabilidade no mundo. Entretanto, não apenas a crise econômica de 2008, mas o aprofundamento das desigualdades sociais, a ascensão de regimes totalitários e o novo “capitalismo de estado chinês” fizeram o consagrado autor americano falar agora no “ fim do fim da história”, uma maneira um pouco constrangida, mas prudente e necessária, de reconhecer que as notícias sobre a morte das incertezas planetárias não foram somente otimistas demais, mas até ingênuas, a considerar o apetite de alguns países por reconfigurar a arquitetura geopolítica que Fukuyama julgara consagrada. A constatação do apelo desmedido pelo uso da força para conquistar e garantir o poder se revela ainda muito atraente para que imaginemos, pelo menos nas condições atuais, uma geopolítica amparada no respeito estrito aos acordos internacionais, como bem explicita a fragilidade da ONU em governar as questões mais críticas que envolvem, por exemplo, conflitos entre os países detentores de armamento nuclear.

A mesma democracia liberal que seria o esteio para a sustentação de governos sem aspirações belicosas ou expansionistas, não se tornou hegemônica e remete novamente a sociedade global aos temores provocados por devaneios autoritários, e isso certamente não sinaliza um panorama de estabilidade futura. Entretanto, a par de um cenário justificadamente inquietante, há aqueles que ousam pensar que, em vez de regredir, estamos avançando, não como um destino idealista hegeliano, no qual estaríamos condenados ao progresso inexorável, mas uma construção sujeita a avanços e recuos, capazes justamente de celebrar as conquistas e simultaneamente gerar o aprendizado que os erros proporcionam. Steven Pinker, professor de Harvard, é um dos intelectuais modernos que desafia o alarmismo e cria um horizonte de possibilidades promissoras para nosso amanhã. Para Pinker, mesmo com retrocessos pontuais, ainda que graves, o ideal de progresso não está obsoleto, e torna-se imperioso rechaçar manchetes e profecias apocalípticas. Num olhar retrospectivo, até mesmo de um período historicamente curto como os últimos 70 anos, é possível constatar notáveis avanços na saúde, na paz, no conhecimento e na felicidade, não apenas no ocidente, mas no mundo todo. Isso não é fruto de nenhuma força cósmica, mas do impulsionamento do florescimento humano, da razão e da ciência, que longe de ser uma esperança ingênua, deverá ser capaz de permitir que haja um amanhã, apesar de você, Vladimir.

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